
Quando se fala em Smart Cities, é comum que a conversa vá direto para sensores, dados em tempo real e painéis de gestão. Mas uma cidade inteligente não se resume à tecnologia que ela usa — ela se define pela qualidade de vida gerada naquela cidade, a capacidade de conectar pessoas, promover bem-estar coletivo e também valorizar aquilo que faz cada território único: sua cultura.
Poucos fenômenos brasileiros ilustram isso tão bem quanto as Festas Juninas. O que começou como celebração religiosa e rural se transformou em tradição no Brasil e nas últimas décadas, em um dos ciclos econômicos mais relevantes do calendário nacional — atrás apenas do Natal e do Carnaval em volume de recursos movimentados, mas à frente de ambos na geração de empregos temporários em diversas regiões. Para gestores públicos, isso significa uma constatação estratégica: gerir tradição cultural com planejamento pode gerir desenvolvimento econômico e social.
Campina Grande: o estudo de caso do Maior São João do Mundo
Campina Grande, na Paraíba, ilustra de forma exemplar essa equação. Autodenominada — e reconhecida nacionalmente — como sede do Maior São João do Mundo, a cidade transformou décadas de tradição forrozeira em uma política pública estruturada de desenvolvimento local, com gestão de dados, parcerias público-privadas e metas de crescimento ano a ano.
Segundo projeções da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município, a edição de 2026 deve confirmar essa trajetória de expansão contínua.
Os números da edição 2026:
- Mais de R$ 800 milhões injetados na economia local e regional — um crescimento de aproximadamente 10% em relação ao ano anterior, quando a festa já havia movimentado mais de R$ 780 milhões
- Cerca de 3,5 milhões de visitantes esperados ao longo de pouco mais de 30 dias de programação
- Densidade econômica que supera até mesmo eventos com duração muito mais longa, gerando mais riqueza por dia de festa do que boa parte

Esse volume de recursos não fica concentrado em um único setor. Ele se espalha por uma cadeia produtiva inteira:
- Turismo e hotelaria, com lotação máxima da rede hoteleira da cidade durante todo o período
- Gastronomia e agronegócio, movimentando produtores rurais, fornecedores de milho, derivados e insumos típicos
- Comércio e artesanato, com barraqueiros, ambulantes e pequenos negócios locais entre os públicos mais beneficiados
- Geração de empregos temporários, em vagas fixas e temporárias que se somam à cadeia de eventos, segurança, transporte e serviços
Essa combinação demonstra como a gestão pública tem a oportunidade de integrar as festas tradicionais ao planejamento estratégico local, abrindo caminhos para que o retorno econômico se multiplique por toda a cidade.
Caruaru: a Capital do Forró e o modelo descentralizado
Se Campina Grande é o exemplo de concentração e densidade econômica, Caruaru, em Pernambuco, representa outro modelo de sucesso igualmente relevante: a descentralização.
Conhecida como a Capital do Forró, Caruaru distribui sua programação por dezenas de polos de animação espalhados pela área urbana e pelos distritos rurais, ao longo de um período que costuma ultrapassar setenta dias. Essa escolha de formato não é acidental: ela leva a movimentação econômica para além do centro da cidade, alcançando bairros e comunidades que, de outra forma, ficariam à margem do fluxo turístico.
O símbolo mais claro dessa descentralização são as tradicionais Comidas Gigantes — preparações típicas em escala monumental, distribuídas gratuitamente em diferentes bairros da cidade. Mais do que atração turística, a tradição funciona como mecanismo de redistribuição de renda: ela movimenta comerciantes, produtores, ambulantes e prestadores de serviço locais, ampliando o alcance social do evento.
Os números recentes confirmam a força do modelo: projeções da gestão municipal apontam para cerca de 4 milhões de visitantes, injeção próxima de R$ 800 milhões na economia local, geração de aproximadamente 20 mil empregos diretos e indiretos e ocupação hoteleira próxima de 100% ao longo da temporada.

Um fenômeno que se repete — com identidade própria — em todo o Nordeste
Campina Grande e Caruaru dividem, ano após ano, o título simbólico de maior São João do mundo. Mas a força econômica das festas juninas nordestinas não se limita a essas duas cidades — cada polo constrói sua própria identidade cultural como diferencial turístico.
Em São Luís (MA), o protagonismo é do Bumba Meu Boi, manifestação reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ali, a festa não gira em torno de grandes shows nacionais, mas dos grupos de boi, com seus sotaques, bordados e rituais próprios — um modelo de valorização do patrimônio imaterial que atrai um público interessado em vivência cultural profunda.
Em Mossoró (RN), o grande diferencial é histórico-artístico: o espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”, encenado a céu aberto, recria a resistência da cidade à invasão do bando de Lampião em 1927. Com dezenas de artistas em cena e milhares de espectadores por noite, a apresentação se tornou o principal cartão-postal do São João potiguar, mostrando como a narrativa histórica local pode ser transformada em produto turístico de alto valor agregado.
Salvador (BA) integra o robusto calendário junino baiano, distribuído por treze zonas turísticas do estado — responsável, no conjunto, por bilhões de reais em movimentação e milhões de visitantes durante o período. Já Aracaju (SE) consolidou eventos como o Forró Caju e o Arraiá do Povo ao longo da orla da Atalaia, reunindo milhões de pessoas e centenas de milhões de reais em impacto direto.
Cada uma dessas cidades comprova a mesma tese sob um ângulo diferente: cultura popular bem estruturada — com curadoria, infraestrutura e comunicação adequadas — pode se converter em desenvolvimento econômico mensurável.
A força econômica ultrapassa o Nordeste
Ainda que o Nordeste concentre os maiores polos juninos do país, o fenômeno é nacional — e cidades de outras regiões vêm demonstrando que o mesmo raciocínio se aplica em escalas diferentes.
Em Votorantim (SP), considerada a maior festa junina do interior paulista, a edição recente reuniu centenas de milhares de visitantes ao longo de cerca de três semanas de programação, com ocupação hoteleira próxima de 90% na região e injeção estimada em torno de R$ 20 milhões na economia local — números expressivos para um município de porte médio, e que demonstram como o modelo é escalável independentemente do tamanho da cidade.
Em Minas Gerais, o estado adotou uma abordagem ainda mais ambiciosa: o programa Minas Junina, uma política estruturante que integra cultura, turismo e desenvolvimento regional. Somente na edição mais recente, mais de 3,5 milhões de visitantes circularam pelo estado em busca dos festejos, distribuídos por mais de 400 municípios e cerca de 700 eventos — com expectativa de crescimento superior a 10% nas próximas edições. O caso mineiro é particularmente relevante para gestores públicos porque mostra como um estado inteiro pode coordenar centenas de celebrações municipais sob uma mesma estratégia de promoção turística e cultural.
Investir em cultura é investir na cidade inteligente
Os exemplos de Campina Grande, Caruaru e de tantos outros polos juninos pelo Brasil deixam uma lição clara para quem gere cidades: tradição cultural não é o oposto de planejamento urbano — é, na verdade, um dos seus insumos mais valiosos.
Cada um desses casos foi construído sobre decisões concretas de gestão: infraestrutura dimensionada para grandes públicos, segurança planejada, curadoria cultural que respeita e amplia identidades locais, e — cada vez mais — o uso de dados para medir impacto, corrigir rota e justificar investimento público diante da sociedade.
Para prefeitos, secretários e gestores municipais, a pergunta que fica não é se vale a pena investir na estruturação de eventos culturais tradicionais, mas como fazer isso de forma planejada, mensurável e sustentável ao longo dos anos. Aliar tecnologia, dados e tradição não é uma contradição — é exatamente onde nasce a cidade verdadeiramente inteligente: aquela que usa o presente para preservar e potencializar sua própria identidade.
Você sabia?
Você sabia que eventos culturais são indicadores oficiais de cidades inteligentes e sustentáveis?
Na norma ISO 37120, temos três indicadores de cultura:
- 17.1: Número de instituições de cultura e instalações esportivas
- 17.2: Porcentagem do orçamento municipal alocado para instalações culturais e esportivas
- 17.3: Número de eventos culturais por 100 000 habitantes (por exemplo, exposições, festivais, concertos)
Fontes consultadas: Prefeitura de Campina Grande (Secretaria de Desenvolvimento Econômico), Jornal da Paraíba, Ministério do Turismo (MTur), Prefeitura de Caruaru (Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Economia Criativa), Governo do Estado do Maranhão (Secretaria de Estado da Cultura), Prefeitura de Mossoró, Secretaria de Turismo do Estado da Bahia, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), Centro de Inteligência da Economia do Turismo de São Paulo (Ciet/SP).


