Rankings e índices de cidades: instrumentos para melhorar a performance da gestão pública

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Os rankings de cidades são cada vez mais populares e atraem muita atenção em todo o mundo. Aponta-se que, já em 2019, constavam mais de 500 índices e rankings de cidades em todo o mundo [1]. Na maior parte dos casos são lançados por consultorias, think thanks, governos, academia, entre outros.

A origem

O benchmarking urbano remonta, pelo menos, à Pesquisa de Preços e Ganhos, compilada pela primeira vez pelo banco suíço UBS em 1970, comparando um grande número de cidades ao redor do mundo em termos de custo de fazer negócios em locais selecionados, projetada para auxiliar nas decisões de investimento do banco.

Rankings posteriores como os produzidos pela Economist Intelligence Unit e pela Mercer, foram elaborados para empresas multinacionais calcularem pacotes de remuneração para executivos expatriados.

Ao longo dos anos houve uma expansão da quantidade de rankings para atrair um público mais amplo para além das empresas. Métricas que quantificam a qualidade de vida dos habitantes – muitas vezes definidas, por exemplo, em termos de educação, segurança, cultura e meio ambiente – complementaram os indicadores mais de foco econômico daqueles rankings iniciais.

O ponto crucial no crescimento global do interesse em rankings parece ter sido a busca por “metricização” da governança urbana, incluindo na formulação de políticas em todo o mundo. As preocupações com a “habitabilidade”, estimuladas pela crescente atenção internacional às questões ambientais e ao desempenho nas cidades, têm sido centrais nesse processo, pelo menos desde o início dos anos 1990 [2].

O que é um ranking de cidades e suas características

Além da expressão “Ranking de Cidades”, outras podem ser frequentemente encontradas e usadas de forma intercambiável tais como “comparação de cidades”, “benchmarking de cidades”, ou “índice de cidades”, ainda que com significados ligeiramente diferentes na prática.

Podemos dizer que os Índices ou rankings, são usados para facilitar o processo de benchmarking da cidade.

Para comparar as cidades entre si, indicadores são escolhidos e atribuídos valores numéricos. Esses valores são muitas vezes agregados para gerar um valor de índice composto que reflete o desempenho do atributo urbano que o estudo foi projetado para avaliar (por exemplo, sustentabilidade, habitabilidade, desempenho econômico, custo de vida). Para criar um ranking, as pontuações do índice composto são então ordenadas do melhor para o pior, facilitando a comparação e, assim, o benchmarking de uma cidade com as demais.

Portanto, rankings mostram o desempenho das cidades quando comparadas entre si nacional ou globalmente, isto é, avaliadas e classificadas em relação a diferentes características, baseadas em vários indicadores tematicamente categorizados.

Ainda que pouca pesquisa tenha sido realizada sobre os rankings de cidades, já foram sugeridas várias dimensões características pelas quais se diferem [3], entre elas, que variam em autoria e tipo de publicação, base de dados (escala de tempo dos dados usados, fonte de dados e/ou dados brutos publicados, método de cálculo geral), indicadores utilizados, dimensão espacial coberta (tamanhos e quantidade de cidades) e como é feita a apresentação do resultado final, se de forma abrangentes com diagnóstico de toda cidade ou temáticos (setoriais).

As vezes podem incorporar dimensões retrospectivas ou prospectivas.

Desta maneira, os rankings fornecem diferentes “lentes” para observação do desempenho das cidades, uma importante base concreta para revelar vantagens comparativas, afinar perfis específicos e, consequentemente, definir metas e estratégias para o desenvolvimento futuro.

Foco dos rankings globais de cidades [4]

Alguns rankings e índices nacionais

E quem são os usuários dos rankings de cidades e como utilizam tais rankings na prática? [5]

Podemos apontar três categorias principais:

a) os produtores de rankings de cidades;
b) formuladores de políticas e planejamento urbanos; e
c) pesquisadores e estudantes.

Cada um deles usa os rankings de cidades de uma maneira diferente.

Para quem elabora rankings, estes aparecem como conjunto útil de dados, além de branding e marketing para suas próprias empresas.

Pelos gestores urbanos e autoridades locais, são usados para planejamento com a avaliação de sua situação atual, comparação com as cidades melhores ou mais bem classificadas, definição de metas e indicadores-chave de desempenho (KPIs), aprender com outras cidades e construir redes colaborativas.

Também costumam usar os rankings estrategicamente para construção da marca da cidade, em comunicações para divulgar o bom trabalho que a administração da cidade está fazendo e assim, promover o turismo e atrair investimentos.

Entre os pesquisadores e estudantes, os rankings fornecem acesso a conjuntos de dados sobre o desempenho das cidades em questões específicas, por exemplo, de resiliência e sustentabilidade. Também para acessarem novos dados de uma cidade coletados e processados por outros, analisarem tendências e melhores práticas.

Apesar de seus benefícios potenciais, os rankings de cidades têm algumas limitações

É importante notar que as metodologias, definições, uso de dados e conclusões variam muito de classificação para classificação [6].

A ponderação dos indicadores, por exemplo, leva a variações nas classificações e reflete suposições distintas sobre a importância de fatores individuais.

Alguns rankings são mais explícitos do que outros sobre suas metodologias, como na escolha de indicadores ou critérios de seleção de cidades. Uma metodologia, embora nunca perfeita, deve ser detalhada o suficiente para dar credibilidade ao ranking.

Os rankings podem ser ainda mais úteis quando fornecem não apenas uma pontuação geral, mas também uma segunda ou terceira camada de informações sobre o desempenho de uma cidade em cada uma das categorias analisadas, oferecendo uma perspectiva ainda mais aprofundada sobre o desempenho da cidade.

Índices produzidos ao longo de vários anos, como o Índice de Centros Financeiros Globais da Z/Yen – permitem que as cidades realizem suas próprias análises longitudinais.

Uma das principais limitações para os rankings de cidades é a falta de dados de qualidade disponíveis para calcular o índice ou ranking. Para a maioria das cidades, os dados em “nível de cidade” não estão disponíveis de forma consistente e diferem drasticamente. Além disso, há um grande desafio de manter os dados atualizados.

Os resultados são passíveis de vieses devido à disponibilidade destes dados. Um exemplo comum ocorre com as cidades menos desenvolvidas, em geral localizadas no Sul Global, muitas vezes incapazes de garantir que hajam dados publicamente disponíveis e, portanto, ocasionando um claro viés para as cidades mais desenvolvidas do Norte Global na maioria dos rankings globais de cidades. E notemos que muitos dos índices de alto nível globais são produzidos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental.

Ao contrário dos dados em “nível de país”, que estão amplamente disponíveis graças a organizações como o Banco Mundial e as Nações Unidas, a coleta de dados de desempenho da cidade ainda precisa ser bastante desenvolvido.

Idealmente os rankings de cidades apresentariam como uma cidade individual é percebida e vivida por seus moradores, de forma que, em algum momento durante a avaliação, engajem diretamente com estes. Mas poucos índices revelam como a opinião pública é contabilizada. Geralmente os índices de cidades são baseados em dados secundários disponíveis publicamente e raramente consultam os moradores, autoridades locais da cidade ou academia em busca de suas opiniões.

Destaquemos, finalmente, que várias organizações, incluindo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Conselho Mundial de Dados da Cidade (WCCD), estão fazendo avanços monumentais para suavizar esses desafios com os dados e assim, contribuir para que as potencialidades dos rankings de cidades sejam cada vez maiores.


Com uma equipe de especialistas em indicadores de cidades utilizados nos rankings, a Bright Cities ajuda no entendimento destes e na adoção de ações concretas em direção às metas dos ODS.

Para conhecer mais nosso trabalho, confira o diagnóstico de sua cidade em nossa plataforma ou entre em contato conosco para descobrir como é possível tornar sua cidade mais inteligente.

Upgrade your city!

Referências

[1] Demand and Disruption in Global Cities: JLL and The Business of Cities, 2019. Disponível em https://www.us.jll.com/en/trends-and-insights/research/demand-and-disruption-in-global-cities

[2] Taking City Rankings Seriously: Engaging with Benchmarking Practices in Global Urbanism, 2021. Disponível em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1468-2427.12974; Beyond the Scorecard: Understanding Global City Rankings, 2015. Disponível em https://www.thechicagocouncil.org/research/report/beyond-scorecard-understanding-global-city-rankings

[3] Smart cities ranking: an effective instrument for the positioning of the cities?, 2009. Disponível em https://core.ac.uk/download/pdf/301204045.pdf

[4] Uma análise extensa de 150 rankings globais pode ser encontrada em What do 150 city indexes and benchmarking studies tell us about the urban world in 2013? The Business of Cities 2013. Disponível em https://web.worldbank.org/archive/EXTYOUTHINK_MAY2017/WEB/IMAGES/JLL_CITY.PDF

[5] Better Rankings for Better Cities: The Limitations and Prospects of City Rankings, 2022. Disponível em https://www.thenatureofcities.com/2022/04/14/better-rankings-for-better-cities-the-limitations-and-prospects-of-city-rankings/

[6] Ibidem 2022; ibidem 2015.


Lucas Tozo

Analista de Pesquisa em Desenvolvimento Sustentável | ESG | Advogado

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